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A economia em Machado de Assis

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Autor: Gustavo Franco

Para este livro, veja a resenha de Renato Lima:
O bruxo do Cosme Velho e o mundo econômico
Crônicas organizadas pelo ex-ministro Gustavo Franco mostram a inteligência e fina ironia de Machado de Assis em análises sobre questões financeiras

“E por que não trataremos um pouco de finanças?”, pergunta Machado de Assis em crônica de 2 de setembro de 1883. No texto, ele sugere ao Tesouro Nacional uma estratégia de negociação de novo empréstimo que fosse menos lesivo ao País. O maior escritor brasileiro, também chamado de o bruxo do Cosme Velho, numa alusão ao bairro onde morou na cidade do Rio, foi também um fino cronista de acontecimentos econômicos. Uma faceta até então inexplorada – e olha que ele é o autor mais bem estudado do Brasil -, que agora ganha coletânia e observações do economista Gustavo Franco, através do lançamento do livro A economia em Machado de Assis (Editora Jorge Zahar, R$ 44).

Quarenta textos foram reunidos, a maior parte crônicas, mas também poesia do famoso autor de Memórias póstumas de Brás Cubas. Trata-se da primeira antologia neste sentido, focando os escritos de Machado de Assis que tratavam de economia. A bem da verdade, não são crônicas meramente econômicas. São de temas que perpassam o financeiro, a crise bancária e a desvalorização cambial com a obra de grandes escritores, outros fatos históricos e a quase sempre presente fina ironia do autor. Os textos ficam mais ricos pela chamada “arte das transições” do cronista, que “consiste em unir tópicos sem relação aparente, mas que justapostos oferecem resultados surpreendentes”, lembra o organizador, Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e professor da PUC-RJ.

A crônica que abre o volume é um primor de ironia. O Tesouro Nacional havia contraído um empréstimo junto aos Rothschild & Sons, que poderia ter ficado mais barato com a incorporação das comissões, ou a lambujem. Ao que Machado recomenda ao Tesouro:

“Devia ir daqui a Londres, uma vez chegado, a começar a passear pelas ruas, com as mãos nas algibeiras, como quem não quer a coisa. Os Srs. Rothschilds, mal o vissem, corriam a apertar-lhe a mão:

– V. Exª por aqui! Que quer? que manda? Disponha de nós… Sabe que fomos e seremos os seus maiores amigos. Vamos, entremos. Que quer? Dois milhões? cinco milhões? dez milhões?

– Nada disso, responderia fleumaticamente o Tesouro. Venho empalhar um crocodilo”.

Diante de tal resposta, prevê Machado, os banqueiros insistiriam tanto que o Tesouro conseguiria um empréstimo mais em conta.

Pernambuco é destaque em uma das crônicas pelo fato do governo local instituir impostos inconstitucionais, sob a importação e exportação de produtos. Os impostos, que também foram adotados pela Bahia e Maranhão, era alvo de debates na corte. “Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente”, inicia outra crônica, em 1885, em que conversa com tais impostos. Em outro momento, ele fala do Banco Emissor de Pernambuco, que, como outros bancos, teve notas falsificadas. Ainda sem Banco Central, vários papéis circulavam no País, valendo como dinheiro. Na época, se dizia, que em Pernambuco valia como dinheiro os “sampaios”, que vinham do diretor da Companhia Ferro Carril, cuja assinatura estava nas passagens, informa Gustavo Franco.

As complicações das finanças chamavam a atenção do mestre das letras do Brasil: “As matérias financeiras e econômicas são graves. Geralmente, os espíritos que não conseguem ver claro nem dizer claro dão para a economia política e as finanças, atribuindo assim à ciência de muitos varões ilustres a obscuridade que está neles próprios”, escreveu em 12 de agosto de 1894.

O custo de vida assusta o cronista, que também se preocupa com as oscilações do câmbio. A desvalorização ocorrida no início da República provoca aumento generalizado dos preços, especialmente os importados. O congelamento de preço, medida quase sempre adotada em tempos de inflação e que sempre dá errado, é assim lembrado por Machado. “Contaram alguma folhas esta semana, que um homem, não querendo pagar por um quilo de carne preço superior ao taxado pela prefeitura, ouvira do açogueiro que poderia pagar o dito preço, mas que o quilo seria mal pesado.” No tempo do Império, o custo de vida avançou 1,5% ao ano, entre 1829 a 1887, ritmo que sobe para 11,5% ao ano entre 1887 a 1896. Em outra ocasião, Machado reclama do aumento do preço dos remédios por uma política protecionista, que visava dobrar o imposto de remédios importados. “Se a saúde vai subir tanto de preço, melhor é ficar com a doença barata”, lamentava.

Em outra ocasião, quando os mercados internacionais ficam mais favoráveis e ocorre outra mudança no câmbio, Machado escreve: “Não dirijo companhia alguma, nem anônima, nem pseudômina: não fundei bancos, nem me disponho a fundi-los, e, de todas as coisas deste mundo e do outro, a que menos entendo, é o câmbio. Não é que lhe negue o direito de subir, mas tantas lástimas ouvi pela queda, quantas ouço agora pela ascensão, não sei se às mesmas pessoas, mas com estes mesmos ouvidos.”

Franco suspeita, pelos escritos, que Machado era acionista do Banco do Brasil. Em uma crônica, utilizando o pseudônimo de Malvólio, ele se declara como acionista de tal banco. O organizador procurou registros no arquivo histórico do Banco do Brasil, que não havia indicação neste sentido. Mas a dúvida permanece. O cronista estava bem informado do que ocorria nas assembléias do banco, incluindo as reformas de seu estatuto. Mas, o acionista retratado por Machado só se preocupa com dividendos. Não importa como a empresa está sendo administrada, mas que pague dividendos. Ser chamado para uma assembléia de acionistas só para os diretores prestarem contas é um incômodo. O importante é que paguem os dividendos, mesmo que para isso sejam frutos de lucros fictícios. É, como lembra Gustavo Franco, não a idéia de acionista que existe hoje, mas a de rentista, tão comum naquela época.

O investimento em ações e na Bolsa de Valores, até em companhias fictícias, era muito comum e ocasionou a famosa crise do Encilhamento, fomentada por Ruy Barbosa. E o próprio Machado também foi vítima de planos governamentais. Uma moratória feita em 1898 afeta títulos que ele possuía (e relaciona em seu testamento). Ao vencedor das letras, o calote.

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