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Revolucionando a agenda política

por Patrícia Carlos de Andrade, Eduardo Viola e Héctor Ricardo Leis

Em março, reuniu-se no Rio de Janeiro um grupo de 25 debatedores – intelectuais, economistas, empresários, jornalistas, políticos, membros e exmembros da alta administração federal. Era o lançamento de Instituto de Estudos da Realidade Nacional, com o tema Rumos do Brasil Contemporâneo, focado no conceito de liberdade. Entre as excelentes palestras, a do economista Paulo Guedes chamou a atenção para o fato de que na última eleição tivemos de escolher, para presidente, um entre quatro candidatos com chances – todos estatizantes e imbuídos em graus variáveis do ideário coletivista, originado na esquerda clássica, no populismo ou na direita oligárquica. Era prova cabal do vazio de idéias num dos lados do espaço público, o liberal, que se tem provado fundamental para a racionalidade do debate eleitoral e a definição de políticas públicas em todos os países desenvolvidos e nos emergentes que avançam consistentemente. Falta-nos corrente político-cultural de direita moderna, que apresente alternativas de avanço para o País na conclusão da transição entre o forte estatismo que sempre caracterizou a sociedade brasileira e a real democracia de mercado, nunca antes experimentada. Movemo-nos sempre na direção de um senso comum raso que circula da esquerda à centro-esquerda e tem por anos criado fortes obstáculos ao crescimento e à modernização do País. Os formadores de opinião – partidos políticos, associações empresariais e profissionais, movimentos sociais, universidades, mídia – não estão, portanto, cumprindo com sua responsabilidade tradicional de estabelecer debate público de qualidade. Ao contrário, alguns atuam para esvaziar o debate, o espaço sendo ocupado pelos marqueteiros de plantão. Enquanto isso, nos países desenvolvidos e nos emergentes mais bem-sucedidos, um novo ator tem ganho papel de destaque: o think tank. Trata-se de um centro de pesquisa que reúne acadêmicos, especialistas e operadores políticos de alto padrão para produzir e difundir idéias políticas e para formular políticas públicas, sua promoção e implementação por meio das mais avançadas técnicas de publicidade. A maioria possui identidade política clara, mas geralmente não tem vínculo partidário orgânico, uma característica que o distingue de outros grupos de estudos políticos. Tem sido particularmente importante para as forças políticas liberais e conservadoras, mas tem papel também para as social-democratas e social-cristãs. Inúmeros artigos publicados nos EUA e na Europa recentemente mostram que os think tanks foram fundamentais nas mudanças da agenda política. Surgiram nos EUA e, a partir da década de 1970, se desenvolveram rapidamente, tendo tido influência decisiva nas eleições de Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho. Seu modelo de sucesso foi importado por vários países, entre os quais Inglaterra, Austrália, Espanha, Holanda, Irlanda, Polônia e Chile – este, não por acaso, o país da América Latina mais desenvolvido econômica e socialmente. O que permitiu tal fenômeno? As dinâmicas do mundo se fundem de formas muitas vezes paradoxais e contraditórias, dentro das quais o senso comum tende a formar uma visão simplificadora e, por isso, paralisante. Há momentos da História, no entanto, em que surgem atores – pensadores, grupos políticos, grupos sociais – capazes de destravar o debate e permitir nova compreensão da realidade. Os think tanks têm cumprido este papel, em nossa época, ao fugir do senso comum e pôr em discussão, de forma clara e qualificada, os processos que impedem o avanço da sociedade. Eles têm sido os atores mais capazes de nutrir as democracias de massas da era de informação com propostas modernas, audaciosas e ao mesmo tempo realistas, e também fator importante de enfraquecimento de políticos populistas e irresponsáveis, acostumados a fazer promessas voluntaristas sem fundamento nas realidades econômicas. Mas há algo mais que explica a força do think tank de mudar os rumos da sociedade: a visão de longo prazo da classe empresarial e seu comprometimento com o futuro de seu país. Os empresários formam o único grupo capaz de dar o suporte financeiro necessário para a existência de um think tank. Por meio de apoio às iniciativas do empreendimento, de patrocínio, de encomendas de pesquisas e cursos, de doações diretas, são fundamentais para atrair e manter equipe de profissionais altamente qualificados, apta a produzir debates, artigos, livros, documentos destinados a grupos de influência específicos, com linguagem acessível e atraente e, ao mesmo tempo, calcados em conhecimento sólido da tradição e da modernidade do pensamento ocidental.

O Estado de S. Paulo, 13 de abril de 2005

Sobre

Hector Leis
Doutor em filosofia, professor da Universidade Federal de Santa Catarina e autor de numerosos trabalhos nas áreas de filosofia política, relações internacionais, e sociologia ambiental.

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