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Relativismo cultural

Uma das grandes pragas modernas é o relativismo cultural, a nebulosa visão de que é impossível julgarmos objetivamente as diferentes culturas, hierarquizando-as. A ditadura do politicamente correto acaba fazendo inúmeras vítimas, que sequer notam as claras contradições desta postura. Não há quem não julgue, no fundo, diferenças de valores. O perigo reside na hipocrisia de se afirmar que são apenas “diferenças”, em vez de emitir um parecer sincero sobre a superioridade de uns sobre os outros. Apelam para a máxima de que “somos todos iguais”, como se um Gandhi fosse realmente igual a um Fernandinho Beira-Mar. Colocar o joio e o trigo no mesmo saco é injusto. Misturar lama com sorvete estraga o sorvete, e não torna a lama apetitosa. Uma cultura é, segundo a definição da Enciclopédia Britânica, um padrão integrado de conhecimento humano, crenças e comportamentos que são resultados da capacidade humana de aprendizagem e transmissão de conhecimento para as gerações seguintes. Cultura consiste então em língua, idéias, crenças, costumes, códigos de conduta, instituições, ferramentas, técnicas, rituais, arte, símbolos etc. A cultura de um povo pode evoluir com o tempo. Cultura se aprende. Os relativistas culturais tentam logo acusar de “nazistas” aqueles que conseguem enxergar objetivamente instituições e costumes superiores – ignorando que Hitler falava em superioridade racial dos arianos, algo que seria inato, não aprendido. O conceito de raça humana sequer faz sentido! Já estoque de conhecimento, instituições, valores e avanços não só existem e variam muito de cultura para cultura, como uns são bastante superiores a outros. Ou será que alguém realmente acredita que a cultura da Suíça é apenas “diferente” da do Zimbábue, e não melhor? Algo inerente aos relativistas culturais, pelo fator contraditório de suas crenças, é o constante uso de dois pesos e duas medidas. Ao mesmo tempo em que relativizam todas as barbaridades provenientes da cultura atrasada que pretendem defender, esquecem o relativismo e partem para a objetividade de julgamento na hora de condenar as culturas que detestam – normalmente as mais avançadas e livres. Assim, cortar o clitóris passa a ser apenas uma “diferença cultural”, como colocar um brinco na filha. Mas o “consumismo” ocidental é algo podre, que deve ser combatido, e não apenas uma “diferença” de valores. Uma cultura que prega a morte de “infiéis” como finalidade máxima é apenas uma cultura “diferente”, enquanto se um país for se defender dessa ameaça, sua “cultura belicosa” passa a ser repugnante. Os relativistas fingem não perceber que se “tudo vale”, pois nenhuma cultura é superior a outra, então um povo pode alegar ter como valor supremo o extermínio de outras culturas. Com qual critério um relativista consegue julgar algo, se tudo não passa de “diferenças culturais”? Outra falácia comum entre os relativistas é tirar as coisas do contexto, comparando alhos com bugalhos. Questionam a tal superioridade cultural do Ocidente citando o império espanhol, com Pizarro trucidando os incas no Peru, por exemplo. Mas ignoram dois pontos cruciais: em primeiro lugar, estão deixando o relativismo de lado e usando um critério objetivo para condenar esse passado negro, possível justamente pela evolução cultural do Ocidente; em segundo lugar, esquecem o fator cronológico e comparam as civilizações modernas com as antigas, sem levar em conta como era a vida naquele tempo, comparando alternativas. O Império Romano, por exemplo, parece atrasado ou mesmo bárbaro aos nossos olhos atuais. Mas quando comparamos o modus vivendi dos romanos com o dos hunos, governados por Átila, vemos que a civilização da época estava com os romanos, enquanto a barbárie estava nos hunos. O mundo não tem absolutamente nada a ganhar com a névoa moral que impede uma análise honesta sobre as diferentes culturas. Isso nada tem a ver com eugenia ou nazismo, posto que cultura não é algo inato, dependente de uma raça. Valores culturais podem – e devem – ser ensinados, copiados, aprendidos. Valores como a liberdade individual, o direito à vida, o império de leis isonômicas, não são apenas uma questão de gosto do “freguês”, mas sim valores universais. Como podem os relativistas falarem em “diferenças culturais” sem grau de hierarquia ao mesmo tempo que pregam os tais “direitos universais”? Não notam a gritante contradição? Se notam – e um mínimo de inteligência permite isso – trata-se então de pura hipocrisia mesmo. Defendem de forma consciente algo errado, injusto e imoral, colocando o podre como equivalente ao sadio, o pérfido como igual ao virtuoso. Que tipo de gente faz isso? Não podem ser os virtuosos…

Sobre Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino
Presidente do Instituto Liberal e membro-fundador do Instituto Millenium (IMIL), Rodrigo Constantino atua no setor financeiro desde 1997. Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), com MBA de Finanças pelo IBMEC, Constantino é colunista de importantes meios de comunicação brasileiros como os jornais “Valor Econômico” e “O Globo”. Conquistou o Prêmio Libertas no XXII Fórum da Liberdade, realizado em 2009. Tem cinco livros publicados, entre eles: “Economia do indivíduo: O legado da Escola Austríaca".

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